Os donos do mosquito - Parte 1




Hoje eu quero comentar um problema recorrente que vejo no mundo acadêmico. O mundo científico é extremamente competitivo, os pesquisadores competem por recursos, alunos, espaço, mídia, posições nas instituições, prestígio, linhas de pesquisa... Dependendo do contexto, a competição fica ainda mais acirrada, e isso é bastante claro no universo dos estudos sobre insetos vetores de doenças.


Algum tempo atrás eu comentei a respeito da enorme diversidade do mundo dos insetos. Se nós quiséssemos, cada pesquisador do planeta poderia ter um número considerável de insetos para estudar sozinho. É possível que haja uma família de insetos para cada entomologista do planeta. O grande problema é que a maioria dos insetos das espécies não impactam diretamente na saúde e na economia dos seres humanos. Dessa maneira, nossos esforços de investigação acabam ficando concentrados em um número absolutamente restrito de espécies biológicas.

Do ponto de vista conceitual isso leva a um empobrecimento das abordagens e a uma compreensão limitada a respeito dos fenômenos estudados. É mais difícil entender a co-evolução entre patógenos e hospedeiros, se limitamos nossos estudos a apenas um punhado de espécies, por exemplo. Dada a complexidade do grupo biológico que estamos discutindo, essa talvez seja a razão pela qual a humanidade tem demorado tanto tempo a dar respostas para as questões que envolvem o controle e manejo de insetos.

Por outro lado, ocorre um fenômeno social que é particularmente danoso ao progresso da ciência. Com apenas dois ou três modelos de estudo de interesse, os pesquisadores que se dedicam ao estudo de insetos vetores acabam competindo muito mais do que em outras áreas da pesquisa pelo pioneirismo, novidades, liderança no tema. Em ciência, o ser humano às vezes se deixa aprisionar numa armadilha das mais antigas, que é a confusão entre gestação de ideias com a propriedade econômica individual. É muito comum nós nos referenciarmos às ideias como nossas, nossas teorias, nossos trabalhos, nossos temas de pesquisa. Enquanto isso for apenas um reflexo da autoria intelectual, não vejo nada de errado, mas as vezes o discurso embute a presunção de posse, domínio, que muitas vezes se quer exclusivo. Como se a natureza mais fundamental do saber científico não fosse a publicidade, a troca, o consenso da comunidade. Claramente o fato de nossa ciência ter se desenvolvido em um contexto mercadológico capitalista bem competitivo tem uma forte influência nesse tipo de comportamento.

Se isso apenas se refletisse em uma competição um pouco mais rancorosa pelos níqueis jogados ao ar pela nossa classe política, o dano não seria tão grande. O problema é quando isso não só impede o avanço do conhecimento, mas também tem um reflexo perverso nas políticas públicas que dependem dos estudos. No caso do controle de insetos vetores, esse dano é ainda maior por uma série de circunstâncias. Como estamos falando de saúde pública, isso envolve muito interesse político e econômico, associado ao ideário e à grande carga de emoção relativa ao salvamento de vidas humanas, à saúde e a doença. Assim, o que acaba acontecendo também por questões mercadológicas é que cada especialista coloque sua ferramenta no mercado, das ideias e do dinheiro, como se fosse a única resposta, única novidade, única e melhor ferramenta que resolverá o problema. Isso é de uma ingenuidade atroz, e talvez tenha conexões com a história da medicina moderna, aonde para a maioria das doenças pôde-se desenvolver estratégias de combate baseadas em um tratamento, um medicamento, um diagnóstico clínico específico. Contudo, quando falamos de agravos transmitidos por insetos vetores, não estamos falando de uma questão que é circunscrita exclusivamente ao domínio da saúde. É um problema ambiental, e em questões relacionadas ao meio ambiente não há problemas ou respostas únicas, simples, é tudo complexo e interdependente. Eu pretendo continuar essa discussão em relação a política e intervenções específicas, mas por enquanto quero apenas deixar aqui o alerta: não existe solução mágica, única, simples ou pontual para o controle de qualquer endemia transmitida por vetores. Um grande abraço a todos e até a próxima!

Comentários

  1. Excelente reflexão. Realmente não existem soluções mágicas. A história do controle de vetores já demonstrou isso a muito tempo. Saudações de Macaé.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado Rodrigo! Saudades de Macaé e do NUPEM. Parabéns pelo trabalho exemplar! Um grande abraço a todos!

    ResponderExcluir
  3. Ótimo texto sobre um excelente tema! O controle integrado de insetos pode ser uma boa saída mas precisa de uma maior conexão entre as diferentes ferramentas utilizadas e colaboração entre os pesquisadores que as desenvolve.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! Acho que todos estão de acordo que o ideal seria termos estratégias de manejo integrado. Vamos torcer e continuar trabalhando para isso virar uma realidade...

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas